Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Limiana n.º 20

Dezembro de 2010

Imagem da capa:

Catedral de Santiago de Compostela
Fotografia de Amândio de Sousa Vieira


Conteúdos

Editorial
As Direcções passam…
(Irene Vieira Rua)

Nas margens do Rio Lima
(Poema de Cláudio Lima)

Casa do Concelho de Ponte de Lima
Convocatória (Assembleia-Geral Ordinária e Assembleia Eleitoral)

Página Literária – Conto de Natal
Não quero morar aqui…
(Cláudio Lima)

A Última “Brincadeira” de Couto Viana?
(Cláudio Lima)

Almoço Convívio de Limianos em Lisboa
(José Pereira Fernandes)

Monumento “Memórias do Campo” – Ponte de Lima

Livro de Fotografia “Ponte de Lima Terra Rica da Humanidade”

Ponte de Lima nos Caminhos de Santiago
(João Gomes d’Abreu – Presidente da Associação dos Amigos do Caminho Português de Santiago)

Itinerário Inédito do Séc.º XVIII dum Caminho de Santiago
(João Alarcão Carvalho Branco – Irmandade de Peregrinos a Santiago por Terras de Basto)

TURQUIA – Uma jóia da nossa tradição
(Sérgio Araújo – GACEL - Grupo de Acção, Cultura e Estudos Limianos)

A Capela do Espírito Santo, Moreira do Lima: Um pequeno Tesouro por abrir
(José Velho Dantas)

As Carvoeiras
(José Lima)

Rancho Folclórico da Correlhã – Comemorações da decorrência de 50 anos sobre a sua fundação
(Rui Quintela)

Freguesias do Concelho de Ponte de Lima – Facha
(P.e António José Baptista)

Turismo no Espaço Rural – A Quinta de Albergaria e os 350 anos da Capela da Senhora da Ajuda
(Rui Quintela)

Solares de Portugal – Quinta do Casal




Editorial

As Direcções passam…

Passados praticamente 3 anos desde a tomada de posse da Direcção que me orgulho de integrar como vice-presidente, é chegada a hora de fazer um balanço.
Como é do conhecimento dos nossos associados, a direcção que em breve cessa funções foi eleita após um período conturbado de vazio directivo. Período relativamente curto, mas demasiado longo face à grandeza desta casa concelhia.
No entanto, fruto do amor à causa limiana e ao regionalismo, nasceu mais uma direcção (das muitas que aí virão) que colocou ao serviço da Associação toda a sua energia, fazendo com que este mandato possa ser considerado desde já um marco histórico entre o passado e o futuro da Casa do Concelho de Ponte de Lima.
Essa energia foi utilizada, desde logo, para dotar a componente administrativa e financeira de maior rigor e da necessária transparência, para reforçar as relações com o município de Ponte de Lima, para engrossar a massa associativa, para fomentar parcerias benéficas para os sócios, para reforçar as iniciativas de cariz cultural, para elevar a qualidade da revista “Limiana” e fazê-la chegar a um maior número de leitores, enfim, para dignificar o nome desta Casa e o nome de Ponte de Lima.
A CCPL pode orgulhar-se de ser das Casas Concelhias que, no concelho de Lisboa, maior número de actividades promovem. Este dinamismo supõe muita dedicação e entrega. Durante estes 3 anos, os sócios foram chamados a colaborar, a intervir, a participar. A todas as chamadas disseram “Presente”. Este é o verdadeiro espírito do regionalismo.
Não poderia deixar de lembrar aqui os elementos do Rancho Folclórico e do Grupo de Cavaquinhos da nossa Casa. Durante 3 anos, testemunhei de muito perto que Ponte de Lima foi cantada e dançada com respeito, vontade, dedicação, amor e muita alegria. Orgulho-me das conquistas que foram conseguidas, mas acredito sempre que podemos fazer melhor.
Sinceramente, estou convicta de que esta direcção será recordada como uma direcção de referência, não só pelo trabalho desenvolvido, mas também por ter tido nas suas fileiras uma percentagem significativa de jovens.
Nesta hora de mudança, a todos agradeço e lanço um desafio: que a próxima direcção (seja ela qual for) tenha o apoio assíduo dos sócios para desenvolver mais e melhores actividades.
Espero vê-los brevemente na nossa Casa: Até lá!

(Irene Vieira Rua)




Casa do Concelho de Ponte de Lima

CONVOCATÓRIA

Assembleia-Geral (Ordinária)

Eng.º Victor Manuel Alves Mendes, na qualidade de Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da Casa do Concelho de Ponte de Lima, ao abrigo artigo 14.º, alínea a), dos Estatutos desta Associação, na sua actual redacção, convoco para o dia 13 de Fevereiro de 2011, pelas 15,00 horas, na respectiva Sede, sita na Rua de Campolide, n.º 316, em Lisboa, uma Assembleia-Geral Ordinária, com a seguinte

ORDEM DE TRABALHOS

1. Leitura e aprovação da Acta anterior;
2. Apresentação e votação do Relatório e Contas de 2010;
3. Outros assuntos de interesse para a Associação.

Se, à hora marcada, não estiverem presentes, pelo menos, metade dos Sócios Efectivos e Federados, a Assembleia reunirá em segunda convocatória meia hora depois, com qualquer número de presenças, considerando-se válidas as deliberações tomadas.

Assembleia Eleitoral

Eng.º Victor Manuel Alves Mendes, na qualidade de Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da Casa do Concelho de Ponte de Lima, ao abrigo artigo 14.º, alínea a), conjugado com o artigo 33.º, n.º 1, dos Estatutos desta Associação, na sua actual redacção, convoco para o dia 13 de Fevereiro de 2011, pelas 16,30 horas, na respectiva Sede, sita na Rua de Campolide, n.º 316, em Lisboa, uma Assembleia Eleitoral, com a seguinte

ORDEM DE TRABALHOS

1. Eleição dos Corpos Gerentes da Associação para o triénio de 2011-2013;
2. Tomada de posse dos eleitos para os Corpos Gerentes;
3. Apresentação e votação do Plano de Actividades para o ano de 2011.

Paços do Concelho, em Ponte de Lima, 26 de Novembro de 2010

O Presidente da Assembleia-Geral

Eng.º Victor Manuel Alves Mendes
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

António Manuel Couto Viana - Que descanse em paz na imortalidade


No Dia de Camões deste ano de todas as crises de 2010, o Poeta António Manuel Couto Viana regressou à sua cidade. Fez a derradeira viagem de Lisboa até à Princesa do Lima, sozinho, a dizer com os seus botões:

«Não suporto nenhum se
(O coração não duvida)
E vou-me embora antes que
Me adiem mais a partida.»

Chovia mansamente. Ninguém estava à sua espera e só as luzes adormecidas da cidade tremeluziram num aceno de boas vindas. Recebeu-o o silêncio, que é quem melhor sabe, na sua infinita sabedoria, que os poetas não morrem. Nunca.
No dia seguinte, sexta, era dia de feira. Pela manhã, abriu-se a igreja de S. Francisco da Ordem Terceira e, num trono de flores que de Lisboa trouxera, numa urna sóbria e desnuda, onde nem uma bandeira da terra, que tanto amou e cantou, houve o discernimento de alguém colocar, para quebrar a frieza, o Poeta repousou. Chegavam amigos, esparsos, traziam mais flores e paravam a olhar a sua fotografia, que era a da capa da revista Limiana que dias antes o homenageara, e ali ficavam, concentrados. Numa oração ou numa recordação. E o Poeta, no seu silêncio, lembrava-lhes versos antigos:

«Quando morrer não envelheço mais.
Vou ficar tal qual sou
Vou, já podre o fruto
Do pomar que eu era.
Não quero luto:
Volto na Primavera.»

Os poetas não morrem. Voltam sempre com as cerejas. Ainda não eram quatro da tarde chegaram mais, muitas pessoas. Silenciosas, olhar distante, roupa escura, a encher os bancos da nave daquele negro-cinza que é cor de tristeza. E uma música suave começou a esvoaçar por cima das lágrimas das palavras que do silêncio se desprendiam. A missa era a do Sagrado Coração, o que só pode ter sido de propósito, pois coração é a palavra consagrada que em toda a obra do Poeta mais se repete:

«Entre o pecado e o perdão,
Chamando a tudo o que me inspira
Memorial do coração.»

Os poetas não morrem. Finda a eucaristia, o padre Armando Rodrigues deu a palavra a um historiador e crítico literário, mestre na sabedoria que a amizade inspira, para falar do Poeta. Alberto Antunes Abreu falou de cor, com a linguagem erudita que nasce na biblioteca da alma, onde a engrenagem das palavras se constrói ao ritmo do coração. E afirmou, peremptório, que António Manuel Couto Viana era o maior Poeta vivo daquela Ribeira Lima, pois vivo continuará sempre, porque os poetas não morrem.
Finda a sua notável oração, Alberto Abreu leu três telegramas. Primeiro, do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, que saudou o «escritor e homem de teatro que muito enriqueceu a cultura portuguesa», a quem prestou «sincera homenagem»; depois, do presidente do Conselho de Administração da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria, que homenageava o «artista e poeta»; e, por fim, da Ministra da Cultura e do Secretário de Estado da Cultura, em nome do Governo e em nome pessoal, expressando a «maior consternação pelo falecimento do poeta, ensaísta e dramaturgo António Manuel Couto Viana, cujo percurso profissional, erigido com profunda dedicação, muito contribuiu para o desenvolvimento e promoção da cultura portuguesa, particularmente das artes cénicas.»
A concluir, o orador, para proclamar a imortalidade do Poeta, convidou cinco pessoas que iriam ler os seus versos: Dantas Lima, Ricardo de Saavedra, Vítor Pi, Flora Silva e o neto do escritor, o actor Juan Gabriel Soutullo. Todos os poemas foram coroados com salvas de palmas, especialmente o último, pois Juan Gabriel anunciou com comovida emoção as razões que o levaram a decorar aquele que considera o mais bonito poema de seu avô. Razões do coração que o coração, chorando, explicou.
Pontos altos da cerimónia foram igualmente as intervenções da Academia de Música Fernandes Fão de Ponte de Lima – Âncora, com interpretações de aprimorado recorte.
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Bem-haja a Câmara limiana por se ter lembrado de homenagear a Cultura com tão carinhosa manifestação cultural.
Entre a assistência destacavam-se os presidentes dos municípios de Viana e Ponte de Lima, bem como os respectivos vereadores do pelouro da Cultura, a presidente da Assembleia Municipal vianense, o secretário da Junta da Meadela e o presidente da Casa das Artes de Arcos de Valdevez. Também deram nas vistas a numerosa representação da Confraria de Gastrónomos do Minho, com capas de cerimónia e medalhas (fundada há precisamente 25 anos e da qual Couto Viana foi o primeiro Juiz), várias lavradeiras da Ronda Típica da Meadela em traje de dó, e muitos familiares e amigos que de Lisboa, do Porto, da Galiza e de outras distantes localidades se deslocaram à igreja da Ordem Terceira para um último adeus ao escritor.
Os poetas nunca morrem, porque vivem nas suas obras eternamente. Mas, como frisou Alberto Abreu, há necessidade de antecipar o futuro, distribuindo pelas crianças das escolas a poesia que ensinará a amá-los. Ou, como o nosso Poeta dizia,

«na tragédia do solitário
Que de si próprio se escondia», há que
«Tirar-lhe o esqueleto do armário
E libertar-lhe a poesia.»

Do espólio de A. M. Couto Viana constam diversas obras inéditas. Uma delas é a História da Companhia Nacional de Teatro, pronta para o prelo; outra é um livro de poesia Jardim Secreto e Sagrado, baseado no esotérico jardim que seu filho Juan Soutullo construiu na casa de Sintra; há ainda novo volume de contos, com o (provável) título O Chamariz dos Homens, que a editora Opera Omnia promete para Janeiro próximo, aquando do aniversário do escritor; noutra editora existe há meses um livro de crónicas e ensaios, Estante Reservada; primorosamente ilustrado por Vítor Pi, aguarda publicação o livro de poesia infantil Se gostas de animais cresces mais; também sobre a sua poesia orientalista, com prefácio de Rodrigo Emílio, foi confiado à Fundação Oriente um volume que aguarda algures a luz do dia.
Logo após o seu falecimento, a Texto publicou a segunda edição de Versos de Cacaracá, ilustrada por Vasco Gargalo. Finalmente, pronta para a impressora está a sua biografia, na qual o poeta e dramaturgo se empenhou até exalar o último suspiro, urdindo comigo um encantatório colar de lembranças: demos-lhe o título Memorial do Coração – Diálogo a quatro mãos.
Inolvidável homenagem será sem dúvida, e sobretudo, tirar, urgentemente, estes livros da gaveta. Para que nunca se cumpra a altiva ironia da última quadra deste seu Epitáfio:

«os versos finais
Podem ser, talvez:
Morreu entre os poetas imortais
O último poeta português.»

Os poetas não morrem, é sabido. Embora, às vezes, alguns teimem em pretender matá-los. Que António Manuel Couto Viana descanse em paz, na sua imortalidade. Ámen!

A INFAUSTA NOTÍCIA

Falecido no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na terça-feira, 8 de Junho, pelas 15h30, onde se encontrava hospitalizado há três semanas com problemas que se agravaram ligados à doença que já o levara à amputação de uma perna e que ultimamente lhe atacavam a outra, António Manuel Couto Viana tinha 87 anos de idade. Natural de Viana do Castelo, aí estudou no Liceu de Gonçalo Velho e depois em Braga até 1946, quando teve de acompanhar a família para Lisboa. A sua carreira foi sempre dedicada à cultura, muito especialmente ligada à poesia e ao teatro, tendo-se distinguido como dramaturgo, ensaísta, memorialista, gastrólogo e autor de livros para crianças.
A infausta notícia correu de imediato por todo o país. Seu corpo ficou depositado em Lisboa, na casa mortuária da paróquia da residência que fora da família, na Igreja de Fátima, durante a quarta-feira, dia 9, por onde passaram centenas de pessoas ligadas ao teatro e às artes em geral, autores, editores, livreiros e figuras públicas, além de familiares e muitos amigos. Como fora sua vontade, a missa de corpo presente foi rezada por um franciscano, o padre Henrique Campos, director da Livraria Franciscana de Cedofeita, no Porto.
Transladado para Viana, ficou depositado na Igreja da Ordem Terceira, sendo as exéquias na tarde do dia seguinte. Aí compareceram o então o Bispo de Viana, D. José Augusto Pedreira, além de outras entidades, familiares, amigos e admiradores. A missa do 7.º dia foi rezada em Lisboa e a do 30.º em Viana.

A última homenagem em vida foi-lhe prestada em Lisboa, em 17 de Abril, pela Casa do Concelho de Ponte de Lima, de que era Sócio Honorário, e pela Limana, revista que António Manuel Couto Viana privilegiou com o seu talento e inultrapassável dedicação desde o segundo número, com a publicação da Oração de Sapiência proferida na Cerimónia de Entronização dos Confrades da Confraria Gastronómica do Sarrabulho à Moda de Ponte de Lima, realizada em 21 de Abril de 2007.
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Nessa homenagem, presidida pelo Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Ponte de Lima e realizada no auditório do CITEFORMA, na Avenida Marquês de Tomar, a poucos metros daquela que foi a sua residência durante décadas, foram proferidas conferências pelo poeta limiano Cláudio Lima, pelo ensaísta e crítico literário João Bigotte Chorão e pelo Prof. Doutor Artur Anselmo, publicadas integralmente no n.º 18.º da Limiana, e que constituem valiosos contributos para o estudo da vida e obra deste consagrado escritor português.

Ricardo de Saavedra

In: “Limiana – Revista de Informação, Cultura e Turismo”, n.º 19, Outubro de 2010.

Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010

Limiana n.º 19

Outubro de 2010

Imagem da capa:

D. Carlos Francisco Martins Pinheiro, Bispo Titular de Dume e Auxiliar Emérito de Braga, no Museu dos Terceiros, em Ponte de Lima.
Fotografia de Amândio de Sousa Vieira


Conteúdos

Editorial
Partidas sem adeus
(José Pereira Fernandes)

Com os meus botões
(Poema de António Manuel Couto Viana)

António Manuel Couto Viana - Que descanse em paz na imortalidade
(Ricardo de Saavedra)

Página Literária
Ponte de Lima: Estudos de História Local
(José Cândido de Oliveira Martins)

D. Carlos Pinheiro, uma vida de pastor assumida e doada
(Monsenhor Sebastião Pires Ferreira – Vigário Geral da Diocese de Viana do Castelo)

A obra limiana de D. Carlos Pinheiro
(Mário Leitão)

Presidente da República nas Feiras Novas

Casa do Concelho de Ponte de Lima - Das Festas de Lisboa às Feiras Novas
(Irene Vieira Rua)

Passeio Regionalista da ACRL ao Concelho de Ponte de Lima
(António Pais de Almeida)

1910-2010 - Implantação da República - O caso de Ponte de Lima
(Adélia da Silva Lima Araújo)

Museu dos Terceiros - Viagem Cultural a Lisboa na Comemoração do 1.º Centenário da República
(João Maria Carvalho)

Gabinete Terra
(Susana Zanit)

Alfredo Cândido - Tanta cor, tanto risco
(José Sousa Vieira)

Auto dos Turcos de Crasto
(Luís Dantas)

Feira do Livro Limiano 2010
(Ana Carneiro)

Ponte de Lima debaixo de fogo
(Manuel Aurora)

Os Garranos na Península Ibérica
(João Barros)

A Romaria da Senhora da Boa Morte
(José Velho Dantas)

Freguesias do Concelho de Ponte de Lima – Correlhã
(Rui Quintela)


Editorial

Partidas sem adeus

Quis o destino que, no breve espaço de quatro dias, tivessem partido do nosso convívio duas ilustres figuras da cultura e da igreja que, não sendo naturais do nosso concelho, ficam indelevelmente ligadas a Ponte de Lima: António Manuel Couto Viana e D. Carlos Francisco Martins Pinheiro.
Com uma dedicação inexcedível, reveladora do afecto que nutria por Ponte de Lima, Couto Viana concedeu-nos o privilégio de uma presença assídua nas páginas da Limiana, que, felizmente, ainda não se esgotou, assinando, desde o segundo número, trabalhos de grande beleza e valor literário, tais como Sinos do Alto Minho e de Fernando Pessoa, Carta ao Poeta Cláudio Lima, Júlio de Lemos num retrato breve e leve, Maria Júlia de Meneses e Vasconcelos – uma poetisa pontelimesa desconhecida, Frei Agostinho da Cruz – Poeta do Lima e da Arrábida, Miguel de Araújo e as suas raízes limianas e Oh, a Lampreia!, este último acompanhado de cinco poemas inéditos com que brindou este “divino ciclóstomo” e que fez questão de “recolher” nas páginas desta revista.
Sobre a vida e obra de D. Carlos Pinheiro, nomeadamente sobre a sua profunda ligação a Ponte de Lima, escrevem, neste número da Limiana, Mons. Sebastião Pires Ferreira, Vigário Geral da Diocese de Viana do Castelo, e Mário Leitão, seu aluno no Externato Cardeal Saraiva, com revelações surpreendentes e chocantes sobre as suas precárias condições de vida nos últimos anos, apesar de, como salienta Mons. Sebastião Ferreira, ter posto “em prática o Mandamento Novo e a Doutrina Social da Igreja, assumindo e testemunhando uma teologia que liberta e promove a pessoa humana e elimina as desigualdades sociais. Pregando e catequisando a todos com a mesma doutrina, foi beneficiando aqueles a quem a sorte não sorrira com tanta vantagem”.
Da leitura destes textos fica-nos a certeza de que D. Carlos Pinheiro representa a expressão concreta da solidariedade, a mais nobre e profunda expressão do altruísmo, que nos torna mais humanos.
Couto Viana e D. Carlos Pinheiro partiram, mas não lhes dissemos adeus. Continuam presentes na Galeria das ilustres Figuras Limianas, enriquecendo ainda mais o património humano de Ponte de Lima.

(José Pereira Fernandes)
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Domingo, 3 de Outubro de 2010

Homenagem da Casa do Concelho de Ponte de Lima a António Manuel Couto Viana

Couto Viana, Dr. Franclim Sousa, Actriz Cecília Guimarães, Actor Vítor de Sousa e João Gonçalves


…quem me dera
visitar Ponte de Lima
nesta plena Prima-
vera!

Gozar a natureza
da vila ribeirinha!
Chamar, a tanta beleza,
minha!

que eu vá, agora, lá acima,
para amar Ponte de Lima
no ardor da Prima-
vera!
A. M. Couto Viana

No dia 17 de Abril de 2010, no auditório do CITEFORMA, em Lisboa, o consagrado autor literário António Manuel Couto Viana foi honrado com uma sessão cultural durante a qual lhe foi entregue o diploma de sócio honorário da Casa do Concelho de Ponte de Lima, conferido por unanimidade e aclamação na Assembleia-Geral de 21 de Fevereiro de 2010. Esta foi uma homenagem há muito tempo esperada e solenemente organizada pela comunidade limiana residente na capital. Com efeito, a presença do homenageado no quotidiano dessa colectividade lisboeta, traduzida em várias sessões literárias, na apresentação de obras e numa participação assídua na Revista Limiana, fazia anunciar o reconhecimento público dos limianos a este autor vianense, amante das causas e das coisas da Ribeira-Lima.
Porém, as razões profundas deste preito resultam do limianismo que Couto Viana demonstrou ao longo da sua vida, sentimento esse que já foi reconhecido pela Câmara Municipal de Ponte de Lima quando o distinguiu em 2009 com a Medalha de Mérito Cultural. Este sentimento tem sido profusamente evidenciado pelo homenageado em inúmeras visitas ao nosso concelho, nos seus discursos, nas suas obras literárias, na paixão com que exalta os valores naturais e históricos da vila e das suas terras, e no valor que dedica aos nossos patrimónios gastronómico e etnográfico Além do lirismo e do bucolismo com que exprime o seu amor pela terra limiana, a sua obra poética deixa transparecer a nostalgia que o invade quando está dela ausente. E a sua dedicação à cultura limiana emerge dos estudos que tem dedicado a inúmeros autores limianos, como Domingos Tarroso, António Vieira Lisboa, Cláudio Lima, Teófilo Carneiro, Manuel Figueiredo, António Feijó, António Ferreira, Conde d’Aurora, Júlio de Lemos e muitos outros.
Mas o Dr. Couto Viana não é só um ilustre poeta contemporâneo, reconhecido e premiado com diversas honrarias e condecorações. Os 45 livros de poesia já publicados fazem parte da sua grande obra literária, traduzida em 126 títulos editados desde finais dos anos quarenta. Nascido em 1923 na cidade de Viana do Castelo, além de poeta distinguiu-se como dramaturgo, contista, memorialista, gastrólogo, autor de livros infantis e tradutor. Foi também empresário teatral, director de jornais e revistas literárias, encenador e actor, tendo sido o primeiro português a obter a licenciatura em Teatro, na Universidade de Veneza.
Na recepção que lhe foi prestada, o folclore limiano marcou presença através do Grupo de Cavaquinhos da C.C.P.L., que actuou no fim das intervenções dos diversos oradores presentes.

Grupo de Cavaquinhos da Casa do Concelho de Ponte de Lima


As esplêndidas intervenções que enriqueceram esta sessão solene tiveram como protagonistas o Dr. Manuel Silva Alves (Cláudio Lima, poeta limiano), o Dr. João Bigotte-Chorão (ensaísta e crítico literário), o Prof. Doutor Artur Anselmo e o Dr. Franclim Castro e Sousa (Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Ponte de Lima).
As declamações poéticas desta sessão ficaram a cargo dos consagrados actores Cecília Guimarães e Vítor de Sousa, que evocaram alguns dos textos que melhor caracterizam a obra poética de Couto Viana.
Como representante da Câmara Municipal, Franklim Sousa manifestou o seu orgulho por presidir a tão elevado momento cultural e referiu que “António Manuel Couto Viana, sendo uma figura da vida cultural nacional e regional, é também um dos nossos que, não sendo pela naturalidade, é pela opção um filho da vila limiana”. E concluiu o seu discurso com esta quadra:

António Manuel Couto Viana,
Não há palavras, não há expressão!
Em Ponte de Lima e em cada limiano,
Tu moras em seu coração.

Como aconteceu com Miguel Roque dos Reys Lemos e José Rosa Araújo, dois outros saudosos vianenses enamorados pela Terra de Ponte, também a ligação apaixonada de A. M. Couto Viana à nossa vila ficará indelével na história.

Mário Leitão


A Poesia de António Manuel Couto Viana

Intervenção do poeta limiano Cláudio Lima

Se desci do Minho para vir falar neste auditório sobre a poesia de A. M. Couto Viana, precisei de apelar às melhores reservas de coragem e de silenciar avisados ditames interiores, que me impunham a evidência da inadequação ao desafio proposto; precisei de invocar razões do coração que legitimassem tão temerária ousadia. É que venho falar de um grande poeta que sendo português e universal na envergadura, também é minhoto e limiano de vivências, de afectos, de memórias. Também ele sentiu a atracção irresistível e inspiradora das “leteas agoas” do Lima, cantadas por Diogo Bernardes; desse “rio saudoso todo cristal” que flui na poesia de António Feijó. Na ausência de outras credenciais, esta afinidade e esta cumplicidade me justificam.
Um grande poeta português, não do séc. XX / princípio do séc. XXI, mas de sempre. Porque a grande poesia, como de resto toda a arte superior, é intemporal; nenhum tempo a retém, a limita, a condiciona. Um grande poeta com um longo percurso sem hiatos nem desvios, consubstanciado em mais de sessenta anos e cerca de cinquenta títulos, contando com recolhas antológicas e obras infanto-juvenis. Seguramente, um dos casos mais fecundos de toda a bibliografia poética portuguesa, veiculando e enriquecendo o nosso mais lídimo lirismo, aquele que vem dos Cancioneiros, se sublima em Camões e se enriquece posteriormente com uma plêiade de vates tais como, entre outros, Afonso Lopes Vieira, Pascoaes, Pessoa e Miguel Torga.
Que poderei dizer mais do que breves generalidades na escassez de tempo que esta cerimónia me impõe? Mesmo que me não faltassem substanciais capacidades para o efeito — que faltam — este espartilho me condicionaria sempre, porque uma grande obra é como um grande rio alimentado por grandes afluentes, que são as obras que sustentadamente a ampliam e enriquecem. Assim, vou falar-vos sucintamente dos dois vectores que, em meu entender, mais vincadamente caracterizam a poesia de Couto Viana: o lirismo intimista e o misticismo pátrio: o coração e a espada.
Começarei por ousar dizer que a poesia de Couto Viana, na sua vertente intimista, tem algo do presencismo humanístico-religioso de um José Régio e na assumpção dos valores histórico-patrióticos vai beber à fonte límpida do saudosismo pascaoleano, muito raramente se dessedentando nas revoltas águas neo-realistas. Mas, atenção: se esta análise tem algo de enviezado e arbitrário, fique bem claro que, com ela, não pretendo colar ao grande poeta rótulos inapropriados e redutores. Não; o autor de O Avestruz Lírico, se nunca meteu a cabeça na areia, indiferente ao que se passava à sua volta, também nunca se submeteu nem se deixou embalar, passiva e a-criticamente, a e por sedutoras vozes que de algum modo pudessem silenciar ou subverter a originalidade e singularidade da sua.
Poder-se-á afirmar que a poesia de Couto Viana — como, aliás, muita da sua prosa memorialista — vai beber à infância o tónus de um lirismo límpido e marulhante:

“Ir-me ao livro do destino
E lê-lo todo ao invés,
Pra ser menino
Outra vez”

— escreve em O Avestruz Lírico; colhe na mocidade a irreverência e o entusiasmo afirmativo:

“Podem pedir-me, em vão,
Poemas sociais,
Amor de irmão pra irmão
E outras coisas mais:

Falo de mim — só falo
Daquilo que conheço.
O resto… calo
E esqueço”

— lê-se na mesma obra; para, na idade adulta e provecta, serenamente, vivenciar e aprofundar os grandes enigmas da vida, do destino e da morte, numa perspectiva de espiritualidade cristã, mesmo se e quando, aqui e ali, cometendo pequenas heresias e atropelos canónicos próprios de um poeta emotivo, rebelde, às vezes paradoxal:

“O meu pecado é arrastar na vida
A maldição pagã
Que me tornou proibida
A maçã”

— revela ele em Restos de Quase Nada e Outras Poesias.
O amor e a amizade, a saudade e a fé, o aqui e o além, — eis os valores que Couto Viana fiel e continuadamente tem cultivado, na vida e na literatura, sobremaneira evidenciados num exemplar registo poético, que concilia modernidade com tradição.
Assume-se Couto Viana um cidadão e artista católico, monárquico e nacionalista, na fidelidade a princípios e valores bebidos no seio familiar e reforçados ideológica e idealisticamente, numa tradição que se foi revigorando com a intervenção de muitos e consagrados de seus pares. Se tal posicionamento é transversal em praticamente toda a sua obra, poética ou não, ele assume especial relevância em livros como Pátria Exausta, Nado Nada, Ponto de Não Regresso, Prefiro Pátria às Rosas. Recorrente, sobretudo, a lúcida consciência envolta numa angústia acerada de uma “pátria exausta” nas suas virtualidades e ideais, na sua identidade perdida, na “inversa navegação” (Sophia) das caravelas ante o esboroar do império.

“Foste, às praias doutrora, ver partir um navio?
Vai vê-lo regressar, sem glória, aos aeroportos.
Antes fosse vazio e viesse vazio
Mas nas entranhas traz cinco séculos mortos.”

— lê-se em Nado Nada. E mais à frente:

“Este mendigo, outrora, era um menino d’oiro,
Teve um Império seu, mas deixou-se roubar.
Hoje, não sabe já se é castelhano ou mouro
E vai às praias ver se ainda lhe resta o mar!”

Para, alfim, concluir, páginas adiante:

“Agora, o meu país são dois palmos de chão
Para uma cova estreita e resignada.
Tem o formato exacto de um caixão.”

Alinhe-se ou não pelos seus ideais, ideias e sentimentos — e nunca o unanimismo e seguidismo acéfalos deram grande resultado, fosse em que domínio fosse — é de reconhecer em Couto Viana, seja na conduta do cidadão, seja no percurso do poeta e escritor, um carácter indefectível, uma postura íntegra, coerente, fidalga. E por isso ele pôde, nos mais recentes livros, assim se auto-avaliar:

“Veio o mundo perverso
Achou-me em cada verso
Lírico, heróico, exacto”
(Restos de Quase Nada e Outras Poesias, 2006);

e, desafiando o porvir:

“Os versos finais
Podem ser, talvez:
Morreu entre os poetas imortais
O último poeta português.”
(Disse e Repito, 2008).

Para, numa confissão só possível a espíritos superiores, de contas acertadas com a vida, confessar estoicamente:

“Só troçando da dor
Sou capaz de viver.”
(Ainda Não, 2010).

Bem andaram a CCPL e a revista LIMIANA, dois espaços dinâmicos e abertos de convívio e cultura da comunidade limiana em Lisboa, em promover esta homenagem e conferir esta distinção à mais alta personalidade literária da nossa região. Nas pessoas de seus Presidente e Director, Sr. João Gonçalves e Dr. José Pereira Fernandes, respectivamente, aqui deixo o meu caloroso aplauso. E ao meu estremado amigo e mestre António Manuel, permito-me corrigir-lhe uns versos de O Coração e a Espada que dizem

“A homenagem a um poeta que morreu
É decorar-lhe os versos”

para:

A homenagem a um poeta que não morre, é decorar-lhe os versos.

Eu prometo!

Cláudio Lima

Louvação de António Manuel Couto Viana

Intervenção do ensaísta e crítico literário João Bigotte Chorão

A quem já percorreu uma longa jornada, e nela teve encontros marcantes, ser-lhe-á permitida uma página de memórias – para, por seu intermédio, falar de outros. Hoje e aqui de Couto Viana, que não conheci na sua nativa e amada Viana nem na Lisboa para onde a vida o trouxe. Sem nunca sair de si, como nas terras minhotas da infância e da juventude, em Lisboa tomou consciência de pertencer a uma geração e com os seus companheiros de viagem se reuniu na bela aventura literária da Távola Redonda (1950-1954). Não me vou deter na revista e no seu significado no contexto de outras publicações daquele tempo, porque já me foi dado apontar o compromisso sobretudo poético das “folhas de poesia”, na introdução à edição fac-similada da Távola (Contexto Editora, Lisboa, 1989).
Não foi em Viana, não foi em Lisboa que encontrei pessoalmente Couto Viana, mas na Figueira da Foz, a praia onde passava as férias com a minha família. Não tenho presente a data, mas esse encontro aconteceu já depois de a Távola Redonda ter cessado voluntariamente a sua publicação: missão cumprida. Não ia Couto Viana a banhos à Figueira, nem para uma conferência ou recital de poesia. Homem de teatro, não comparecia ali no papel de autor, actor ou encenador, mas como membro do júri de um concurso de grupos amadores. Acompanhavam-no, também nessa qualidade, Goulart Nogueira, poeta da Távola (que, ao contrário do operoso Couto Viana, optaria pelo silêncio, indiferente à publicação em livro dos seus escritos) e António José Pereira Forjaz, que voltaria a encontrar mais tarde como presidente da Câmara de Sintra, a bela vila onde então me levava o hoje silenciado romancista Francisco Costa. Na Figueira, pude acompanhar os membros do júri em algum espectáculo, mas o que a memória sobretudo conserva é uma cordial conversa numa pastelaria vizinha do Casino.
Alguns anos depois, em 1965, Couto Viana voltou ao meu convívio sob a forma de livro – aquele que reuniu os títulos publicados entre 1948 e 1963 – e recebi surpreso ainda em Coimbra. Não me apressei a escrever sobre o Poeta, não sei se por não ter oportunidade ou porque me retraía o nome daqueles que o apresentavam – David Mourão-Ferreira, co-director da Távola Redonda, e Artur Anselmo, já maduro em anos juvenis. Creio que só me abalancei a dizer de minha justiça quando, a convite do Autor, escrevi sobre o livro inédito Entretanto entre tantos, incluído no volume Uma Vez Uma Voz (Editorial Verbo, 1985).
Ainda a amável convite de Couto Viana, dei um breve prefácio, sob a forma de carta aberta, a Hospital (Viana, 2000) – essa geena em que o doente padecia a via-sacra do sofrimento. Carta que li em público, quando do lançamento em Viana do Castelo desse pungente livro. Chegou enfim o momento de fazer um estudo mais desenvolvido – um verdadeiro e próprio ensaio – sobre a poesia de Couto Viana. Nasceu esse ensaio de um convite de alunos da Universidade Nova de Lisboa para falar da obra do Poeta. O texto então lido apareceu, aqui e além retocado, como posfácio à antologia, organizada pelo próprio Couto Viana, Sou quem fui (Ática, 2000). Coube-me ainda colaborar, no Círculo Eça de Queiroz e com o meu filho Pedro Mexia, na apresentação da poesia escolhida, uma cuidada edição da Caixotim, O Velho de Novo (2000), título auto-irónico, não invulgar em Couto Viana
A sua produção poética, felizmente sempre incompleta, reuniu-a o autor em dois volumes: 60 Anos de Poesia (Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2004). O meu contributo para esse imponente corpus poético limitou-se ao texto da contracapa, onde em poucas linhas procurei dar o essencial do itinerário de Couto Viana. Permito-me reproduzir aqui essa síntese. “No seu percurso poético, Couto Viana não seguiu sempre a mesma estrada. Depois do inicial egotismo de Avestruz Lírico, conhece companheiros com afinidades electivas e literárias, que se reúnem na revista Távola Redonda. Mas o seu solar mundo estético foi subitamente perturbado por circunstâncias obscuras, que se exprimem na linguagem sibilina, e por vezes áspera, de Relatório Secreto. E quem se olhava sempre a si próprio abre os alhos ao mundo circundante, vendo, ainda que não visível, o que ele pressente: o poeta faz-se vate. A partir de Pátria Exausta ouve o ruído surdo de uma tempestade que se aproxima. O pressentimento transforma-se em lamento, quando faz o inventário do desastre. Refeito do desespero, renasce a esperança de um futuro ainda possível. No longínquo Oriente, descobre pegadas de antepassados nossos, que lhe restituem o orgulho de ser português. No Oriente descobre também outro universo e outra civilização, exóticos para olhos ocidentais. Da lírica intimidade acede ao visual e ao descritivo. Regressando à terra e a si mesmo, escreve os poemas crepusculares e, não raro irónicos, de Café de Subúrbio (1991). Uma Lisboa periférica é o melancólico observatório em que o “velho” – assim se autodenomina o Poeta – vê, desencantado, os outros e se vê a si mesmo.”
Não é só, porém, o poeta de límpida compostura e apurada oficina que admiro de longa data – poeta a que, por isso mesmo, foi colado o fácil rótulo de “passadista”. Poeta sebástico, sim, de rosto bifronte: um que contempla o passado, outro voltado para o futuro. Também para Couto Viana vale o que defendia T. S. Eliot, isto é, uma tradição renovada pelo talento individual.
As suas firmes convicções religiosas e políticas não se exprimem em agressividade polémica que recusa a mão a quem segue coerentemente outra estrada. No fundo e sempre, um homem civilizado, fiel a valores da amizade. Convivente, bom conversador, boa memória, com todos os atributos para animar qualquer convívio.
Poeta que é também bom prosador. Nos seus livros memorialísticos, auspiciosamente inaugurados com Coração Arquivista (Editorial Verbo, 1977), ao dom evocativo alia-se o espírito crítico, que parte dos textos e por vezes do conhecimento dos autores, sem o suporte de especulações teoréticas. O bom, saboroso prosador manifesta-se exuberantemente em recentes contos pícaros (Os Despautérios do Padre Libório, Opera Omnia, Guimarães, 2008), a última e mais inesperada faceta do talento literário de Couto Viana. O lírico melindroso e saudosista, o poeta elegíaco e ferido da pátria decepada e da velhice e doença inexoráveis, como que se desafoga num riso travesso, hilariante e contagiante em histórias do arco-da-velha. O que não será porventura verdadeiro, é certamente bem achado pela imaginação do Autor. Fino espectador da comédia da vida, ri-se e faz-nos rir. Pergunto-me se ele subscreve o admirável paradoxo de Almada:”A alegria é a coisa mais séria da vida.”
Se a última feição de escritor pícaro surpreendeu quem se habituara à imagem do poeta magoado pela vida e a pátria (Mon pays me fait mal, podia ele repetir o queixume de Brasillach), não menos surpreendeu o seu ânimo e o seu exemplo quando o infortúnio o pôs à prova, confinando-o ao quarto e à cadeira de rodas, reduzindo as ocasiões de convívio e privando o gourmet da boa mesa.
No seu novo lar, a Casa do Artista (em boa hora fundada), a simpatia de Couto Viana é como um bálsamo para a melancolia dos residentes, seus companheiros. Amigos batem-lhe à porta do quarto, mobilado de livros e com uma janela rasgada para um horizonte desafogado, - amigos que saem dessas visitas edificados pelo que lhes é dado ver e ouvir, quiçá um poema ou artigo acabado de escrever. A poesia não o abandona mesmo em tardos anos de prosa. Já esse milagre espantava Herculano no seu amigo Garrett, que, no entanto, não chegara, como Couto Viana, a uma idade avançada. Até quando as musas não se esquivarão ao poeta que lhes foi exemplarmente fiel? Ele mesmo reconhece que, não obstante o pesado jugo dos trabalhos e dos dias,
“a vida não vai vazia:
Se hoje [lhe] falta o Teatro,
Não [lhe] falta a Poesia”
E reconhece igualmente:
“Que importa a vida cruel,
Com seus danos e seus perigos,
A quem tem pena, papel
E o carinho dos amigos?”

Consinta António Manuel Couto Viana que eu, sem presunção, esteja nesse círculo de amigos, que, à amizade, associam o sentimento de admiração pela obra e o homem.

João Bigotte Chorão